sábado, 28 de agosto de 2010

Adoniran

O centenário de uma personalidade é sempre boa oportunidade para descobrirmos um pouco mais sobre a sua essência.

Sempre achei interessante a obra de Adoniran, entretanto, confesso que pouco conhecia ou pesquisei a seu respeito.

Recentemente, em um documentário, vi o próprio Adoniran explicando sobre suas escolhas linguísticas ao compor uma música. Não se tratava, como muitos podem imaginar, de um ignorante ou limitado que escrevia equivocadamente a língua portuguesa. Ao contrário, sua opção pela forma popular de expressão, explorando palavras que feriam gravemente a "norma culta", revelava a alma do artista que procura no diferente a graça, a leveza, o humor, ou, conforme suas próprias palavras, o pitoresco.

Segundo Houaiss, pitoresco pode ser aquilo "que diverte, recreativo" ou ainda aquilo "que é original de modo gracioso, envolvente, fascinante".

Fico imaginando se Adoniran ainda estivesse vivo. Melhor, fico imaginando como poderia dizer-se pitoresco fazendo músicas com os erros que lhe faziam na época tão autêntico. Hoje, pitoresco é utilizar um vocabulário mais diversificado, é ter um discurso estruturado. Pitoresco é fazer uso correto do subjuntivo. É respeitar toda e qualquer concordância. É saber que a letra S não é uma entidade mitológica e serve para se fazer o plural das palavras. É não cair na tentação do gerundismo e estar consciente dos usos do infinitivo flexionado.

Mas a época é outra. O sucesso constrói-se a partir da mediocridade que produz incessantemente "hits" que duram uma semana. Ou será que alguém imagina que, daqui a 100 anos, comemorar-se-á o centenário de alguma aberração artística do momento?

Comemorar-se-á???... Nossa, acabei de ser bem pitoresca, kkkk.

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